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O artista da
natureza Hundertwasser, defendia que o homem e a mulher tenhem três
peles: a pele do corpo, do vestido e da casa. A pintura como a música
fazem parte das três peles, som elementos imprescindíveis para a
saúde e a melhora da qualidade de vida.
Na casa a música é
a nossa escolha pessoal e momentánea, ainda que depois escuitamo-la
no carro, nas salas de espera, nos pubs, nos atendedores de chamadas,
nas lojas de roupa, na estaçom do comboios á 7 da manhá, no metro,ás
vezes torna-se um prazer e em muitos casos converte-se numa imposiçom
como os cánticos de Natal nos altifalantes das ruas galegas.
Com a música normalmente
eu desfruto, recreio-me na estrutura duma cançom, na sua instrumentaçom,
na harmonia ou na melodia, podo sentir entrar o ritmo polos pès
e cruzar o corpo cara o cerebro, e até desfruto do fio musical do
dentista ainda que se vaia com o vento e se esqueça no tempo. E
como sempre, tudo isto depende-me do adverbio depende.
Creio, saber, que na
inmensa maioria dos lares galegos nom se consome muita música. Por
exemplo, em Noente Paradise donde eu moro, como em "qualquer
lugar de paróquia" seguese ainda as leis da troca: a vizinha
coloca-me a salada na porta e eu em agradecimento dou-lhe um Cd
que nom tem onde escuitar. Porque nom tudo o mundo tem equipamento
de música na casa.
Em Noente Paradise
compram-se em colectividade utensílios importantes para a comunidade
como o rolo de cimento para aplanar as terras, o alambique para
a cana e o copo da fonte, mas o que precisam realmente é de um equipamento
de música colectivo pendurado das sobreiras (que ainda hà) ainda
que tenham radio-gravador nos carros.
Esta falta de educaçom
muscal que fortalece a música como valor cultural é um tremendo
lastre para toda a infraestructura futura e presente do pais.
Na Europa antiga, na
civilizaçom dos nossos pais/mais gregos/as a dança e a música eram
dous grandes pilares para o desenvolvimento humam, no Leste de Europa
a música é considerada um valor patrimonial, no continente asiático
e africano a figura do músico é respeitável e reconhecida pola comunidade...
Aqui, na Galiza num festival chamado "folk" (folque) roubárom
umha furgoneta com pandeiros e pandeiretas duns músicos enquanto
deixavam intacto todo o resto que havia na portabagagens. Entom,
por qu e´que nom se cuida e protege aos artistas que tenhem o poder
de transformaçom e da revoluçom deste novo século... se quigeram?
Na Galiza este respeito
social recai fundamentalmente nas bandas de música (questom puramente
de geraçons, "as cousas do sangue som muito sérias") e
nas orquestras de pachanga. A música tradicional fica relegada á
chamadas "gallegadas", cançons que amenizam jantares populares,actualmente
rememoradas graças aos trabalhos de recolha ou algum programa televisivo,
sem ainda conseguir umha consciência real que leve a que esta música
ocupe naturalmente e diariamente os espaços que merece.
E por enquanto, o folque
galego segue a fazer números de trapécio sempre sem rede por baixo.
Por um lado é mais dependente das etiquetas comerciais que da qualidade
ou conceito musical e por outro vive uma falta de atrevimento para
chegar a convertê-lo numa forma de vida, isto leva-o á necessária
defesa do trabalho como qualquer outro ofício que precisa agora
máis que nunca de um algo grau de associacionismo e assim tambem
vive alheio ao perigo que supom converter-se em funcionário/a da
música ou músicos de fim de semana, é dizer, a cair no inmobilismo.
Se isto fôr pouco,
como exitoso número funambulesco encontramo-nos com a falta de memória
histórica e de conhecimento do passado musical do povo galego interpretativa
e documentalmente. Deste jeito, as que nos dedicamos á música percebemos
isto desde um prisma ás vezes inconscentemente profissional e ás
vezes carente de objectividade e sem conhecimento em situ do que
acontece em cada "comarca" do pais.
Tento lembrar quando
algum dia desfrutava da música quimicamente, quando chegava a ser
uma sesaçom que entrava no corpo sem licença. Pensando que esa sensaçom
perduraria estudei num conservatório oficial, um lugar donde aprendes
o que nom deves fazer e também a definiçom absoluta do termo música:
"el arte de combinar el sonido con el ritmo". Máis tarde
a música da Carme de Bizet vim que se definia de forma diferente:
"a música é brillante e apaixoada, imprecionadora dos sentido
com a sua franqueza e força".
Daquela entendim que
nom andava descaminhada quando gostava duma peça eu dum artista
que me podia fazer rir, chorar ou subir a temperatura corporal.
Com o folque passei
tempo a entender a estructura, as influências e cópias... desfrutando
cada vez menos a nom ser que aparecesse uma letra correctamente
escrita e surpreendente, uma voz limpa que trasmita, um/umha instrumentista
preparado/a que fosse quem de olhar fixamente o público e companheiros/as
de cenários, um artista de verdade que conciba ó público individualmente...
entom pouco che importa o estilo nem o género musical, só interessa
o processo de comunicaçom e como tal o triunfo da naturalidade e
da sinceridade.
Afinal tantas voltas
para corfimar expectativas dos 14 anos quanto te subias por vez
primeira a um cenário e tinhamos a sinceridade da adolescéncia mas
sem consciência.
Publicado em: Radio
Rahim Sound System. Número 02, Junho. Compostela 2002
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